1. Spirit Fanfics >
  2. Os Dias Eram Iguais. E pior: Todos Tinham Cara de Domingo >
  3. Desde a Criação do Universo, Tudo Estava Destinado - único

História Os Dias Eram Iguais. E pior: Todos Tinham Cara de Domingo - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Olá. Como estamos nessa entediante noite de domingo? Espero que bem.

Eu tô desde o começo do ano tentando escrever algo que fugisse um pouco das coisas que tô acostumada a fazer e, bem, acho que finalmente consegui. Talvez tenha ficado confuso, sei lá, mas eu gostei e espero que alguém goste também <3

Boa leitura!

Capítulo 1 - Desde a Criação do Universo, Tudo Estava Destinado - único


 

Os dias eram exatamente iguais. E pior:  todos tinham cara de domingo.

 

{...}

 

A vida sempre pareceu não passar disso: nascer, comer, crescer, dormir, trabalhar, comer, sofrer dezenas de decepções diferentes, dormir, envelhecer e morrer. A única certeza é que tudo isso levaria à morte, de um jeito ou de outro. E, acredite, isso não soava nada esperançoso.

Yoongi seguia o mesmo script sem graça todos os dias. Tal e qual um personagem cuja vida inteira já foi meticulosamente escrita e o autor sádico não tem a menor intenção de modificar o roteiro. Tudo igual. T-U-D-O.

O mesmo caminho até o trabalho, as mesmas músicas tocando no fone de ouvido, o mesmo uniforme verde sem graça, os mesmos sonhos não realizados martelando na cabeça e o mesmo ódio por quase todos os hábitos da existência humana. 

Ah, a mesma preguiça de viver e existir também. Assim como a mesma covardia de sempre. Não, a covardia na verdade aumentava um pouquinho mais a cada dia. Era imenso o medo do incerto, de mudar de rota um pouquinho e acabar perdido.

Nunca se sabe o que pode haver na próxima esquina, na próxima rua nunca explorada…

Dito isso, aconteceu o que Yoongi mais temia no momento: férias… Depois de pouco mais de um ano trabalhando naquele emprego não tão ruim, mas também não tão bom, viu-se obrigado a… a… a… DESCANSAR. Vejam só o absurdo!

Trinta dias sem precisar seguir uma rotina, sem precisar acordar muito cedo depois de ter ido dormir muito tarde. Trinta dias sem escutar reclamações do chefe ou dos clientes que pareciam adorar encher-lhe o saco.

Mas também trinta dias perdido, sem saber o que fazer com a própria vida. Assim como um animal que passou a vida em cárcere e que, quando livre, não sabe para onde ir e precisa descobrir o que fazer com a própria existência. Resumindo: seria um tédio só!

Nos primeiros três dias aproveitou o tempo livre para colocar as séries que acompanhava em dia; no quarto dia limpou bem o quarto e o restante dos cômodos imundos daquele apartamento apertado e bagunçado que chamava de casa. No quinto escolheu começar um livro novo. E na manhã do sexto dia decidiu que melhoraria suas habilidades na cozinha… e quase pôs fogo na casa ao esquecer uma colher dentro do pote onde pretendia derreter chocolate no microondas.

Quando a limpeza da casa toda terminou e aceitou que não sabia mesmo cozinhar algo que preste e que não tinha dom para aprender, repetiu a mesma rotina de sucesso por toda a semana seguinte: comer, dormir, assistir série, ler um livro, comer, dormir… e de mansinho o tédio foi chegando, corroendo-o devagarinho e aumentando de tamanho até transformar-se num monstro gigantesco e difícil de ignorar. 

Yoongi já estava há duas semanas sem sair de casa para nada, nem pra comprar comida, pois tinha estocado mais do que suficiente para que isso fosse possível. A pele branquela já não sabia mais o que eram raios solares e os olhos doíam à qualquer menção de luz natural um pouco mais forte.

Mas naquele comecinho de noite a ansiedade veio forte como um tufão, o deixando agoniado. O quarto outrora aconchegante parecia uma prisão e mesmo com o ar condicionado ligado sentia-se com calor. Seu cérebro gritava que estava atrasado, mesmo que não houvesse nenhum compromisso. Absolutamente nada para fazer.

O Min precisou de um banho quente e muita calma para não surtar. Após trocar de roupa, decidiu que caminharia um pouco no enorme bosque que ficava na quadra em frente ao prédio onde morava. Mesmo que não estivesse nenhum pouco animado a fazer isso e mesmo que seu fôlego tenha acabado quase todo no caminho até o elevador.

Já na calçada, Yoongi abaixou-se para amarrar melhor o cadarço do tênis e se alongou bem porcamente. Sendo bem sincero? Sequer dava para chamar aquilo de alongamento, mas o que vale é a intenção, pensou consigo, tentando ser bem positivo mesmo. E então respirou fundo algumas vezes, atravessou a ruazinha pouquíssimo movimentada e pisou os pézinhos preguiçosos na pista de cooper.

Um passo, depois outro e mais outro… inspira, expira, inspira, expira… e pouco à pouco a preguiça de existir foi sendo posta de lado, por mais inacreditável que aquilo pudesse lhe parecer. A noite estava fresca e tranquila, acompanhada de um vento ameno que refresca o corpo, mas que não causa frio. Ainda era possível ouvir o som de motores e de buzinas de veículos ao longe, mas nada que chegasse a incomodar. Parecia até cidadezinha de interior, ao invés de uma grande capital movimentada e caótica.

A grande concentração de árvores até o fazia esquecer de que morava e estava preso naquela selva de pedra recheada de poluição e gente chata. Um casal passou correndo por si, falando e rindo alto, Yoongi assustou-se e por um breve segundo imaginou como seria viver em um mundo onde não existisse mais ninguém. Extremamente solitário? Com certeza, mas bastante sossegado também.

E então o rapaz decidiu andar mata à dentro, só um pouquinho. O suficiente para encontrar sossego e solidão sem ficar meio perdido ou acabar se machucando em algum galho mais baixo que pudesse existir pelo caminho. Contudo bastou afastar-se um pouquinho da pista de cooper para ser atingido com força bem direto na parte de trás da cabeça. 

Caiu no chão de terra num baque só. Os olhos fecharam-se automaticamente enquanto o rosto todo se contorcia numa careta de dor daquelas. E lentamente foi perdendo a consciência do que acontecia à sua volta… Não muito longe dali, uma luz fraca brilhava, indicando um objeto desconhecido caído por entre as folhas secas…

E então depois de sabe-se lá ao certo quanto tempo, Yoongi despertou, perdido e confuso. Abriu os olhos, viu a escuridão quase completa, interrompida apenas pela pouca luz que a lua emitia naquele momento. Precisou de um longo momento para lembrar-se de onde estava e o que diabos havia ido fazer ali. 

Com muito custo conseguiu trazer de volta a memória de ter decidido dar uma caminhada mata à dentro. O momento em que a própria cabeça foi atingida com força, como se alguém estivesse tentando partir um coco seco ao meio. Sentou-se de imediato, procurando por um possível agressor.

Mas tudo que conseguiu encontrar foi um enjôo intenso e uma tontura que fez tudo à sua volta girar. Yoongi respirou fundo, a boca salivando e o corpo tornando-se cada vez mais gelado. Alguns segundos de olhos fechados o trouxeram de volta aos eixos, mas a parte de trás da cabeça ainda doía imensamente.

Levantar dali foi o ato mais difícil que executou durante todo o dia. E olha que não surtar durante uma crise de ansiedade já o tinha parecido conquista suficiente para valer como vitória relembrada durante o resto do mês. O coração batia a mil por hora, como se quisesse lembrá-lo que estava ali, bombeando sangue e o mantendo vivo.

Yoongi escutou o barulho de folhas secas sendo amassadas, igualzinho quando alguém pisa nelas e logo uma silhueta fez-se presente ao lado de uma árvore bem próxima de onde estava parado, estático.

— O-olá… Tem alguém aí? — questionou e a silhueta sumiu por trás da árvore num instante só. — Eu tenho spray de pimenta bem aqui! —  gritou. Era mentira, óbvio, mas o ladrão ou assediador ou bandido não precisava saber disso.

Em seu cérebro soava o tempo todo um alarme de pânico insuportável, o dizendo para sair correndo dali como se não houvesse amanhã, contudo suas pernas, — trêmulas, fracas e atualmente não muito úteis — pareciam pouco dispostas a executar qualquer ato que não fosse apenas ficar imóveis, sustentando o peso do corpo dele.

— Eu não quero seu spray de pimenta. — uma voz grossa e masculina ressoou baixinho.

— Não é pra você! É pra jogar em você! — ameaçou.

— Ah… —  a voz respondeu, dessa vez mais alto. Yoongi podia até estar ficando louco, mas achou que aquela pessoa parecia confusa. Como se ainda não tivesse entendido muito bem a mecânica de uma ameaça. — E porque você vai jogar isso em mim? — a pergunta veio para confirmar a teoria do Min.

— Para fazer seus olhos arderem insuportavelmente...

— Que horror! Porque alguém faria isso com outro alguém?

— Pra machucar, ué. É o que se faz quando você anda com isso e se sente ameaçado.

— Ah… — novamente em tom de dúvida. — E eu estou te ameaçando? 

— Não sei… Me diga você.

— Dizer o quê?

— Se você é uma ameaça ou não! Puta que pariu, quanta sonseira! 

A paciência de Yoongi, que não era lá grande coisa, estava por um fio. Na verdade, sentia-se um idiota por estar mantendo um diálogo como aquele com um ser desconhecido, pouco depois de ter levado uma pancada na cabeça e sem saber se ele era o agressor ou não. Será que ainda não tinha visto filmes de terror suficientes? Por acaso não sabia que bosques desertos, durante a noite, eram um dos cenários perfeitos para mortes, possessões e ataques?

— Bem, eu não sei… Acho que não... O que quer dizer a palavra ameaça?

— Mano… você não tá falando sério…

Aquilo ali se tornava cada vez mais inacreditável. O que viria depois? Yoongi explicaria ao pé da letra a palavra ameaça, depois diria “toma aqui, senhor possivel ladrão, meu celular e meus earpods hiper caros, que parcelei em doze vezes. Não me machuque. Espero que o senhor tenha uma boa noite e sucesso nos próximos assaltos. Até nunca mais, eu espero.” e iria embora como se nada tivesse acontecido?

— Tô sim! É claro que eu tô. E mano é tipo irmão ou algo assim?

— Não! — coçou a nuca. — Quer dizer… sim… tipo isso… é uma gíria.

— Ah… gíria… tipo chuchu beleza, estourar a boca do balão e grilado? E ameaça, o que é? Eu não me lembro de ter a tradução disso, também não lembro de nada parecido no meu idioma...

No idioma… dele?, Yoongi repetiu mentalmente, completamente perdido. Já não sabia se aquela conversa era realmente séria ou se estava batendo papo com um doido varrido. Ainda assim, resolveu dar corda pra ver no que aquilo ia dar.

— Sim. Mais ou menos isso. Tirando o fato de que mais ninguém fala assim... E ameaça é tipo, como eu posso dizer, é o mesmo que um sinal de que algo pode acontecer. Na nossa situação atual, por exemplo, uma ameaça é o que fiz quando disse que tinha spray de pimenta e podia jogá-lo em seus olhos para fazê-los arder. Entendeu?

— Ah! Entendi. É tipo dizer que vai fazer mal à alguém! — exclamou, animado. — No meu idioma, nós não usamos essa palavra.

— E qual vocês usam?

— Bolsonaro.

Yoongi pensou por um tempo. Nunca tinha ouvido aquela palavra antes em nenhum idioma que conhecia. Não que fosse alguma espécie de especialista ou algo assim. Sequer era fluente em outra língua que não a própria, que havia aprendido desde pequeno. De todo modo, ainda que não soubesse ao certo o que pensar, achou que de modo geral aquilo até que combinava com ameaça.

— Então… é… de qual país você veio mesmo? — procurou mudar o foco do assunto.

E então o rapaz, que ainda era só uma silhueta escondida na escuridão, decidiu afastar-se da árvore e se aproximar um pouco. Yoongi ainda não podia vê-lo com muita clareza, no entanto era o suficiente para identificar cabelos longos e escuros, na altura dos ombros. Aquele ser humano peculiar ergueu um dos braços e apontou para o céu.

— Dali... — Ele respondeu.

— Dali? Onde? — O Min não entendeu muito bem ou quis fingir que não.

— Do que vocês chamam de céu. — completou simplista, como se estivesse dizendo simplesmente que nasceu na maternidade do outro lado da cidade.

Houve então alguns segundos de silêncio, onde Yoongi olhou para cima e contemplou a imensidão, tentando imaginar além do que seus pobres olhos mortais e limitados conseguiam enxergar. Além do que conhecemos e dizemos ser verdade. Pouco depois, a risada gostosa dele ecoou pelo bosque, alta e livre.

— Você é realmente engraçado, cara, mas agora acho que eu vou indo, tá?! Seja lá qual for a droga que você usa, por favor não use mais. Tá fudendo com sua mente.

O rapaz desconhecido piscou os olhos de maneira meio irregular, sem entender muito bem porque o que disse pareceu tão engraçado ao outro.. 

— Eu não uso… isso aí.

— Certo, certo. Você finge que é verdade, eu finjo que acredito. Tá bom assim pra você, parceiro?

— Não sei. — deu de ombros. — Eu caí do céu. — repetiu.

— E você é quem pra cair do céu? Lucifer? Ou aquele carinha lá que interpretou aquele anjo em Cidade dos Anjos e caiu só pra se tornar humano?

— Eu sou Jung Hoseok. — respondeu. — De Sollarias.

— Então prove. — Yoongi pediu, descrente de tudo que ouvira até ali.

Mais silêncio antes do tal Hoseok fechar os olhos e se concentrar. Mais um pouquinho de silêncio antes de um desenho, do que parecia ser um sol, brilhar em sua testa, dissipando toda  a escuridão que havia em volta ao queimar em meio à uma chama pequena e controlada. E logo em seguida o silêncio sendo quebrado por Yoongi caindo de bunda no chão, todo assustado.

— Você veio… me-mesmo… do… do… céu?

Hoseok sacudiu a cabeça calmamente, indicando que sim.

— De um planeta distante e chato, além da Via Láctea, chamado Sollarias.

E então Yoongi passou a cogitar a ideia de que ele mesmo talvez estivesse usando drogas sem saber. Talvez alguma substância aleatória perdida na água que bebeu antes de sair. Era isso ou a pancada na cabeça estava lhe causando alucinações.

A chama quente e cegante que vinha da testa de Hoseok foi reduzindo devagarinho, dando lugar à uma luz cintilante e amarelada, muito bonita, que brilhava fraquinho. Yoongi pensou nele como uma espécie de fogueira e riu. Na verdade, mais como uma versão pequena e aparentemente humana do próprio sol. Filho do sol, pensou consigo. 

— Esse desenho… na sua testa… serve pra alguma coisa? — perguntou com cuidado.

— Os seres do meu planeta são formados basicamente de fogo e consequentemente luz. Nossa forma original é essa. Eu tenho usado esse calor como combustível para minha nave… — fez uma pausa e respirou fundo. — mas está acabando. — completou, antes de desligar-se, fazendo-os voltar a escuridão quase completa.

Yoongi levantou-se do chão finalmente, batendo as mãos pela calça para tentar livrar-se da terra que havia acumulado por todo o tecido. Já de pé, ele fechou os olhos e respirou fundo. Lembrou-se de todos os filmes sobre alienígenas que assistiu e focou no fato de que pelo menos noventa por cento deles — pra não dizer praticamente cem por cento — os descrevia como possível ameaça à toda vida terrena.

— Você, bem, não veio aqui nos destruir, veio?

— Não. — Hoseok riu, pela primeira vez. O som da risada gostosa dele arrepiou todos os pelinhos do braço do Min. — Eu gostar do seu planeta… É lindo… — concluiu, em certo tom de admiração e contemplação.

— Nossa! Que alívio! — Yoongi levou a mão até o peito, soltando o ar que estava prendendo enquanto aguardava por uma resposta que não lhe deixasse em pânico e prestes a rezar implorando para não morrer.

Mas ele pode estar mentindo…, uma voz cruel ecoou em sua mente. Mentindo. O Min pensou um pouco, cogitando a ideia, contudo por algum motivo que ainda não conhecia, não conseguia sentir sequer uma ondinha de ameaça emanando daquele alienígena. Ele, de algum modo, confiava em Hoseok e no fato de que ele não sairia loucamente botando fogo em tudo...

— Você sabe o que atingiu minha cabeça? — depois de um tempo tão distraído, voltou a pensar na dor latejante que o atingia bem próximo a nuca.

— Ah… Pode ter sido minha nave… Eu não fiz um pouso muito bem. 

— Entendi…. Doeu, viu?! Agora é uma boa hora pra você pedir desculpas.

— Desculpas?

— Sim!

— Sim! — Hoseok concordou, aproximando-se do Min.

Yoongi levou ambas as mãos até a cintura e ficou esperando que o Jung se pronunciasse, mas tudo que veio foi o silêncio… e os braços dele o envolvendo em um abraço totalmente desajeitado. Um dos braços em volta do pescoço, o outro mais acima, próximo ao topo da cabeça.

— O que você está fazendo?

— Pedindo desculpas. — Hoseok respondeu.

— Não. Você está me abraçando.

— Não é assim que se pede desculpas?

— Não. Você só diz “me desculpe por isso” ou algo assim e tá bom.

— Ah… — Hoseok imediatamente afastou-se. — Acho que não conheço os seus costumes tão bem quanto achei que conhecia. 

— Acho que não conhece mesmo.

E eu nunca abracei ninguém. Então com certeza fiz isso errado também. Me desculpe por isso? — falou, em tom de questionamento, como se estivesse perguntando se fez certo dessa vez.

— Isso. Tá certinho. 

“E eu nunca abracei ninguém”, a frase alheia repetiu-se dentro da cabeça de Yoongi, deixando-o com uma sensação de desconforto pairando sob o peito. Por mais que pensasse bem nisso, não conseguia imaginar o quão triste devia ser nunca ter recebido um abraço de verdade, carregado de carinho, proteção e cuidado… como o de uma mãe, por exemplo.

É claro que abraços são uma questão importante e muito presente entre os habitantes da Terra, mas talvez no planeta daquele alienígena não fosse. Talvez eles demonstrassem amor e carinho, sei lá, jogando faisquinhas chamejantes uns nos outros. E talvez o amor nem sequer existisse na vida deles... 

Ainda assim, Yoongi quis que Hoseok conhecesse a sensação. E foi por isso que se aproximou dele, com cuidado, trazendo-o para dentro do próprio abraço. As mãos do Min o envolveram pelos ombros, num aperto leve, e Hoseok ficou parado, estático, sem entender muito bem.

— Você precisa me abraçar de volta pra isso aqui fazer sentido. — Yoongi resmungou.

— Ah… — Hoseok respondeu. — Assim? — questionou pouco depois de rodear a cintura de Yoongi com os braços, talvez o apertando com um pouco mais de força do que o necessário.

Exatamente assim. — concordou, fechando os olhos. Era confortável.

Um calorzinho gostoso emanava de Hoseok, aquecendo Yoongi lentamente. Assim como uma xícara de chocolate quente em um dia frio. Exatamente como enfiar-se debaixo das cobertas depois de ter andado em meio ao vento frio do inverno. 

E Hoseok, por sua vez, sentiu, pela primeira vez, como era estar perto de alguém o suficiente para sentir que a temperatura alheia ia fundir-se a sua, não de um jeito perigoso, como acontecia em seu planeta, mas de um jeito bom. Ele não podia ver, pois agora havia fechado os olhos, mas naquele momento seu corpo inteiro estava irradiando uma onda cintilante de calor, brilhando fraquinho, de um jeito que não queima, mas que traz conforto e tranquilidade.

— Oi, eu sou o Olaf, e gosto de abraços quentinhos. — Yoongi sussurrou, sorrindo, antes de afastar-se meio à contragosto. E sentiu-se preso no inverno de Frozen quando o contato chegou ao fim.

O terráqueo não pretendia admitir, mas durante um segundo desejou que aquele momento durasse para sempre.

— Acho que gosto muito de como os abraços são. — O Jung confessou, querendo outro, mas sem coragem para pedir.

— Lá no seu planeta, realmente não existem abraços?

— Não. Na verdade, ninguém por lá sequer conhece isso. É muito calor junto, ocupando o mesmo ambiente. Se a gente se aproximasse muito, poderia causar incêndios impossíveis de controlar e explosões de calor.

— E vocês tem um corpo, digamos, humano?

— Podemos assumir a forma que quisermos, mas geralmente a grande maioria escolhe apenas ser uma chama mesmo, que é o que somos naturalmente. 

Yoongi tentou imaginar como podia ser aquilo, mas não sabia dizer ao certo se havia conseguido. Em sua cabeça, os habitantes de Sollarias eram como fogueiras ambulantes, só que com calor capaz de explodir um planeta e incapazes de ficar próximos uns dos outros.

— E como é, você sabe, o Univeeerso? — O Min olhou para cima, enquanto pronunciava a palavra Universo de um modo engraçado.

— É imeeeenso. — Hoseok usou o mesmo tom. — E perfeito. Incrivelmente perfeito. Você nunca viajou pra fora daqui?

Yoongi caiu na gargalhada. Viajar pra fora? Fora onde? Sequer conhecia outro país, quem dirá outros planetas, estrelas e galáxias.

— Nunca nem saí do estado onde moro, pra falar bem a verdade. — assumiu, curioso sobre como devia ser uma viagem interplanetária.

— Podemos ir, se você quiser. Eu ainda tenho calor suficiente para uma última viagem não muito longa e também não muito demorada.

— Sério?! Eu quero. É claro que quero! — respondeu, eufórico.

E o humano estava tão animado com a ideia de conhecer lugares que mais ninguém conhecia, que sequer percebeu os perigos que aquilo tudo representava. Seu pobre e frágil corpinho magricela não aguentaria sequer a decolagem e poderia muito bem explodir em um milhão de... É brincadeira! 

Nada daria errado ali, pois Hoseok, ainda que o tivesse acabado de conhecer, havia prometido a si mesmo que não permitiria que nada de mal acontecesse à Yoongi e que o protegeria enquanto pudesse. Como em Sollarias muito raramente ocorria algo que merecesse um pedido de desculpas e, quando ocorria, normalmente era algo grave, era assim que cidadãos Sollarianos se desculpavam: jurando proteção sem fim, enquanto seus corpos luminosos durassem.

Então, depois de tudo combinado e ligeiramente explicado, ambos se aproximaram da nave invisível do Jung. Yoongi ficou um pouco cético quanto à veracidade daquilo, mas diante de tudo o que tinha visto e ouvido, decidiu dar mais um voto de confiança. Hoseok concentrou-se e queimou por inteiro, enquanto segurava as mãos alheias com força.

Segundos depois, estavam dentro da tal nave, parados em frente ao painel simples e com poucos botões, completamente diferente do que os filmes terráqueos mostravam. A luz interna dali era forte, vinda de um ponto concentrado bem no meio do teto. O ambiente era pequeno, sem muito espaço para caminhar. Apenas duas cadeiras presas ao chão, lado a lado, e a parte da frente da nave inteirinha sendo feita de um material transparente, que Yoongi quis concluir que fosse um tipo de vidro. Hoseok pressionou um botão grande, de tom amarelo.

Olhando através do vidro, o Min conseguia ver claramente as árvores do bosque balançando enquanto aquela coisa levantava vôo. Não conseguia senti-la voando, mas via o chão tornando-se cada vez mais distante numa velocidade absurda.

— Com certeza é bem diferente do que os humanos imaginam que é. — comentou, olhando em volta.

— Com certeza é! Vi algumas daquelas... gravações? Que vocês fazem, que contam tipo histórias.

— Filmes? — Yoongi perguntou.

— Sim. Filmes. Nunca conheci nenhum habitante de outro planeta que seja cinza e pequenininho como os filmes mostram. — Hoseok sentou-se e Yoongi fez o mesmo.

— Bem, é o poder da imaginação. — riu. — Como sabe tanto sobre nós?

— As gravações, quer dizer, filmes. Vi alguns. Durante um período bem curto, consegui pegar o sinal dos satélites da terra e sintonizar com a minha mente. Acho que vocês chamam isso de televisão. Não durou muito, infelizmente, mas consegui gravar alguns conteúdos. Aprendi muito.

— Aprendeu muito assistindo televisão?

— Sim. Aprendi alguns idiomas, costumes e modo de vestir. Essa roupa que tô usando é igualzinha à…

— Roupa do Marty Mcfly em De Volta Para o Futuro. — concluiu.

— Isso! — animou-se.

E então Yoongi finalmente permitiu-se olhar de verdade para Hoseok, do começo ao fim, de cima à baixo. Era um humano completo, detalhe por detalhe. Sorriso bonito, olhos expressivos, cabelos negros sedosos e compridos. Lábios rosados em formato de coração e o próprio sol brilhando na testa. Simplesmente lindo. Yoongi engoliu em seco. Lindo, pensou mais uma vez, um pouco tonto com tanta informação diferente vindo ao mesmo tempo.

— Porque escolheu se parecer com um humano?

— Porque gosto de como vocês são e os Sollarianos podem escolher ter a forma que quiserem… mas somente uma vez. E então nunca mais podem ser outra coisa, nem voltar ao que eram antes.

Yoongi ficou pensativo. Ele mesmo diversas vezes desejou não ser como era. E talvez, justamente por isso, fosse incapaz de entender toda aquela admiração que Hoseok parecia nutrir pela Terra e por aqueles que a habitavam. A raça humana lhe parecia ter dado tão errado, de tantos modos diferentes… que ele nem sequer conseguia mensurar o quanto.

— Então você vai se parecer com um humano pra sempre?

— Sim.

— Eternamente?

— Até o dia em que eu apagar ou, nesse caso, morrer, como vocês dizem.

— Os serem do seu planeta apagam?

— Sim. Um dia a energia se esgota e eles deixam de existir.

— Que triste… — abaixou a cabeça, mais pensativo ainda.

— Não é. É comum e normal. Nós não construímos laços uns com os outros, como os seres humanos. Então para nós, apagar-se é completamente normal e corriqueiro, tanto quanto acender-se.

— Até que faz sentido. — Yoongi concordou. — Quando se ama alguém, a morte é sempre mais triste para quem fica do que pra quem vai. Se não existem laços, acho que essa tristeza deixa de existir.

E continuou pensativo, observando Hoseok como se não houvesse mais nada para se olhar. Pensou algo sobre os Sollarianos serem fisicamente quentes, mas emocionalmente frios, e desejou nunca morar em Sollarias. A Terra tinha lá seus defeitos, — e eram muitos, muitos mesmo — mas com certeza era mais agradável de se viver do que o planeta do Jung.

Até porque, independente de tudo que era ruim, havia ainda muita coisa boa existindo por aí.

— Você está tão concentrado em me fazer perguntas, que está perdendo toda a vista. — Hoseok apontou para o lado de fora.

E Yoongi virou-se para frente e tudo que encontrou foi a imensidão escura do céu, delicadamente manchada pelo brilho das estrelas. Pouco depois passaram voando o mais próximo que conseguiram em volta da lua. Era a coisa mais perfeita do mundo, toda imperfeitamente cheia de crateras e cicatrizes dos asteroides e meteoros que com ela se chocaram. 

Hoseok narrou histórias sobre nebulosas distantes nos mais diversos formatos, e planetas que a ciência humana sequer descobriu ainda. Afirmou ter procurado pelo asteróide B612, interessado em conhecer O Pequeno Príncipe que Antoine de Saint-Exupéry narrou. Falou sobre peixes espaciais sobrevoando um pequeno planeta que viu uma única vez na vida e coisas que sequer pareciam ser verdade.

E então, num piscar de olhos, chegou a hora de voltar para a Terra e fincar os pés no chão, bem presos à realidade.

— Meu calor está se esgotando. — o Jung comentou, simplista, assim que saíram da nave.

Yoongi ainda estava em estado de choque, pensando na quantidade de coisas que a humanidade ainda não conhecia e que talvez nunca fosse conhecer. Sentia-se pequeno e insignificante diante de tudo, como um único grão de areia na amplitude da praia.

— E o que acontece agora? — questionou, um tanto confuso.

— Eu apago.

— QUÊ? — arregalou os olhos. — COMO ASSIM APAGA?

— Deixo de existir.

— Você não pode deixar de existir! Eu acabei de te conhecer, você acabou de chegar... A Terra é tão grande… Você nunca mais vai ver seu planeta, seu lar!

— Sim, eu sei que é, mas gastei quase todo meu calor apenas para chegar aqui. Fico feliz de poder apagar em seu planeta. Pelo menos conquistei parte do meu objetivo, que foi conseguir terminar minha viagem. E eu não sinto saudades de casa. Lá é chato, sem graça e entediante.

E Yoongi, que nem sequer havia se apresentado direito ainda, dito o próprio nome, e que se considerava uma rocha de tão emocionalmente forte e inabalável, sentiu vontade de chorar. Era insuportavelmente triste imaginar que a vida de alguém terminaria dali há poucos segundos, minutos ou horas. E mais triste ainda pensar que esse tal alguém sequer parecia se importar.

O Jung parecia tão interessado em conhecer os humanos, mas sequer teria a oportunidade de viver as coisas que aquela sociedade cruel e egoísta tinha de bom.

E Hoseok voltou a brilhar, emitindo uma luz azulada e fraca, praticamente sem calor algum. Yoongi aproximou-se novamente e voltou a abraçá-lo, dessa vez com força, sem temer apertá-lo e assumindo que não se machucaria ao fazer aquilo. Não queria deixá-lo ir de jeito nenhum. O Jung sorriu, tranquilo, prestes a apagar-se de vez.

— Eu não acredito que você gastou suas últimas energias para viajar comigo. — o Min choramingou, triste.

— Acho que valeu à pena. — Hoseok respondeu, baixinho.

E ainda que a ideia toda pudesse soar estranha e que talvez recebesse uma puta de uma rejeição, Yoongi o beijou. Só um selinho. A boca de coração moldou-se perfeitamente sob a sua, como se houvesse sido feita para ocupar aquele espaço. Os olhos de ambos se fecharam e nenhum deles viu quando o sol na testa de Hoseok brilhou em um milhão de tonalidades diferentes. Uma luz branca e forte tomou conta de tudo, irradiando do Jung e indo direto até o Min.

E então tudo apagou…

 

{...}

 

— Hey, cara. Acorda!

Yoongi ouviu alguém chamar e despertou, assustado, levantando-se num pulo. Uma vez de pé, levou a mão até próximo da nuca. Uma dor latejante o incomodava bem na parte de trás da cabeça. Ele respirou fundo, completamente tonto. Quando olhou em volta, reconheceu o bosque e então lembrou-se de tudo. 

De Hoseok, de Sollarias e do quanto a lua era linda vista de pertinho. Tocou os próprios lábios e foi como se ainda sentisse a boca em formato de coração cobrindo a sua delicadamente e então quis chorar de solidão. Tudo o que queria era que aquele momento, onde viajou pelo espaço, acompanhado de Hoseok, pudesse ser eterno, porque, naquele momento, naquele pequeno momento que nem sequer havia sido real, Min Yoongi foi extremamente feliz.

— Tá tudo bem? — a voz masculina voltou a ecoar e Yoongi lembrou-se que havia acordado porque alguém o chamou.

— Tá sim… Alguma coisa me atingiu bem na cabeça e acho que eu desmaiei.

— Me desculpe por isso. Imagino que tenha sido minha bola de futebol.

Yoongi endireitou o corpo e olhou na direção daquele rapaz, mas não conseguia vê-lo direito em meio ao escuro. Ele podia até estar ficando louco de vez ou algo assim, mas o tom de voz daquele cara, dizendo “me desculpe por isso” era igualzinho o de Hoseok. O Hoseok que não existe, pensou consigo.

— Tudo bem. Não se preocupe. — respondeu de qualquer jeito, sem se importar, e começou a andar. Só queria chegar em casa logo e tomar um banho longo. Talvez chorar um pouco. 

— Hey! Aonde você vai? O machucado pode ser sério. Não quer ir ao médico?

— Não, não quero. Você já se desculpou. Pode ficar quieto na sua.

— Você mora longe daqui? — continuou a andar atrás do Min — Vou te acompanhar até em casa pelo menos.

— Não precisa, cara. — Yoongi virou-se em direção à ele, assim que alcançou um ponto onde a luminosidade das luzes da pista de cooper os alcançava.

Ali poderia ver com extrema clareza a aparência do filho da mãe que o machucou e torcer para nunca mais esbarrar com ele por aí. No entanto assim que seus olhos pousaram sob o peitoral bem delineado e subiram lentamente até o rosto, Yoongi ficou de boca aberta. Fios espessos e negros caíam até os ombros, lisos e um tanto volumosos. A boca ligeiramente carnuda tinha formato de coração e na testa… bem, na testa não tinha um desenho de sol, mas aquele cara era exatamente igual à Hoseok, sem tirar, nem pôr.

Uma leve tontura o atingiu em cheio e ele teve que se abaixar um pouco para conseguir encontrar novamente um ponto de equilíbrio. Algumas noites nessa vida com certeza são capazes de ser muito confusas.

— Tá vendo só? Você tá com tontura. Não tá bem coisa alguma! — o rapaz comentou. — Vamos ao médico.

— Qual o seu nome? — Yoongi questionou.

— Jung Hoseok. — ele respondeu, meio desconfiado.

Yoongi endireitou a postura e o olhou bem dentro dos olhos, esperando por alguma reação. Reação que, inclusive, não veio. Notou então que o tal carinha vestia uma camiseta de De Volta Para o Futuro e deu um sorriso de canto. Inacreditável, pensou

— Você me conhece de algum lugar? — perguntou, mesmo que talvez não fizesse nenhum sentido.

O tal Hoseok o observou com atenção, de cima à baixo, depois colocou a mão no queixo e deu de ombros.

— Acho que não, mas sua aparência não me soa estranha. Talvez tenha te visto pelo bairro, não sei, mudei pra cá faz pouco tempo.

— Ok, certo, eu vou direto ao ponto. Você acharia estranho se eu te dissesse que sinto que te conheço de outras ocasiões, outras vidas talvez, e te chamasse pra tomar um café comigo bem ali naquela cafeteria do outro lado da rua?

— Sim. — ele riu. A risada gostosa dele arrepiou todos os pelinhos do braço do Min. — Acharia, no mínimo, um pouco estranho.

— Tá bem. É realmente estranho, admito, mas você iria comigo ou não?

— Sim. — Hoseok concordou. E Yoongi sorriu, mesmo sentindo dor.

E carregando consigo lembranças muito reais de um certo alienígena, Yoongi caminhou devagarinho até a cafeteria. Ele e Hoseok conversaram por horas, trocaram números de telefone e continuaram conversando até a madrugada depois de chegar em casa. Meses depois houve um casamento e nenhuma vontade de conhecer a vida sozinhos novamente.

E digamos apenas que o Universo, em toda sua plenitude e imensidão, moveu-se perfeitamente, sem nenhuma falha, para garantir que Jung Hoseok voltasse para Min Yoongi mesmo depois de apagar. Porque é assim que era pra ser.

 

{...}

 

“Desde a criação do Universo, tudo estava destinado.”


 


Notas Finais


É isso, galera. Vcs vão notar que o Hoseok fala algumas palavras erradas, mas isso é pq ele não sabe 100% do idioma.

E digamos que o fato do Hoseok ser o próprio sol e uma fanfic da @proliiixa foram os gatilhos iniciais para isso aqui. Vou deixar o link da fanfic, vale muito à pena ler: https://www.spiritfanfiction.com/historia/totalmente-abajur-de-escrivaninha-por-voce-18816902


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...